sábado, 12 de maio de 2012

Saudade de uma Bauru


Quase sempre, nem vemos o tempo passar. Mas ele passa. E, de repente, me vejo sem qualquer vontade de andar pelo centro de Bauru, onde certamente vivi bons momentos, dos passeios com os pais ao verdadeiro primeiro beijo, com o meu verdadeiro primeiro amor.

E hoje acho o centro de Bauru chato, cheio, quente... O que se há de fazer? Mas há tempo eu não parava para pensar nas mudanças que ocorreram nos últimos dez anos. Lendo a crônica do meu aluno Agenor (aliás, foi um exercício em sala de aula que me proporcionou a leitura de deliciosas crônicas!), pensei nessa saudade toda, nessa loucura toda. Isso me lembra uma antiga crônica minha, escrita na faculdade (nota mental: procurar para publicar aqui).

Cada cidade vai deixando um tipo de saudade para cada pessoa.  
Eu ainda gosto de ver as árvores de Bauru.



Com vocês, a crônica do Agenor. 

Bauru costumava ser mais divertida. Quando tinha meus nove, dez anos, acreditava que essa cidade era mágica. Me encantava com cada cantinho, cada esquina, cada lugar que eu visitava. Criei as lembranças mais felizes e fiz os melhores amigos que alguém pode ter.

Porém, o tempo passou, eu cresci e a cidade perdeu o encanto. Não sei se foi por eu ter ganhado uns anos a mais de vida e perdido a inocência que tinha quando criança, mas fato é que Bauru não é mais a cidade empolgante e colorida que eu conheci nos meus tempos de colégio.

Na minha época, as ruas não tinham tantos buracos, as crianças do bairro podiam brincar durante a noite sem medo dos criminosos, não faltava água nas casas, as praças eram mais limpas, e o bosque era mais verde.

Contudo, hoje em dia, o que vemos são ruas intransitáveis por conta dos buracos, assaltos que ocorrem à luz do dia, praças devastadas e sujas, bairros que sofrem diariamente com a falta de água e um bosque esquecido pela comunidade.

A cidade, que leva o mesmo nome do sanduíche conhecido pelo seu sabor incomparável, perdeu seu ingrediente principal, tornando-se insossa, previsível e entediante.

Sinto saudade da Bauru de dez anos atrás e fico triste pelas crianças que não vão conhecer a cidade da mesma maneira que eu conheci, como um lugar apaixonante, encantador e cheio de charme.

Agenor Rodrigues Júnior, segundo ano Jornalismo/USC.

domingo, 29 de abril de 2012

Anne Frank não pode ser esquecida!


"Vou colocar de um modo mais claro, já que ninguém acreditará que uma garota de treze anos seja completamente sozinha no mundo. E não sou. Tenho pais amorosos e uma irmã de dezesseis anos, e há umas trinta pessoas que posso chamar de amigas. (...) Tenho uma família, tias amorosas e uma casa boa. Não; na superfície parece que tenho tudo, a não ser um único amigo de verdade. (...) Foi por isso que comecei o diário." (Anne Frank)

Uma menina de treze anos. Uma menina comum, ou nem tão comum assim, mas dotada de uma inteligência e uma sensibilidade especiais. De qualquer forma, seus sentimentos eram os de uma adolescente; e que menina (ou mesmo mulher) não se identifica com os instantes de solidão de uma adolescente? Apenas não são todos que conseguem expressar com palavras, ou com a mesma intensidade.


Seu diário começa no contexto de uma vida quase comum. Ou nem tanto, já que para os judeus, nos anos de 1940, era assim:

"os judeus deveriam usar uma estrela amarela; os judeus eram proibidos de andar nos bondes; os judeus eram proibidos de andar de carro, mesmo que fossem carros deles; os judeus deveriam fazer suas compras entre três e cinco horas da tarde; os judeus só deveriam frequentar barbearias e salões de beleza de proprietários judeus; os judeus eram proibidos de sair às ruas entre oito da noite e seis da manhã; os judeus eram proibidos de comparecer a teatros, cinemas ou qualquer outra forma de diversão; os judeus eram proibidos de frequentar piscinas, quadras de tênis, campos de hóquei ou qualquer outro campo de atletismo; os judeus eram proibidos de ficar em seus jardins ou nos de amigos depois das oito da noite; os judeus eram proibidos de visitar casas de cristãos; os judeus deveriam frequentar escolas judias etc. Você não podia fazer isso nem aquilo, mas a vida continuava. Jacque [amiga de Anne] sempre me dizia: 'Eu não ouso fazer mais nada, porque tenho medo de que não seja permitido.'" (Anne Frank)

E a vida de Anne fica ainda mais incomum quando passa a morar com mais seis, depois sete, pessoas no chamado “Anexo”, no Prinsengracht 263, em Amsterdam. No total, são oito no esconderijo, ajudados por benfeitores futuramente penalizados por isso.

Com a vida no Anexo, é natural que os pensamentos - e os escritos de Anne, cheios de qualidades literárias, fiquem mais densos:

"Vejo nós oito, no Anexo, como se fôssemos um retalho de céu azul rodeado por nuvens negras e ameaçadoras. O trecho perfeitamente redondo onde estamos ainda é seguro, mas as nuvens se aproximam, e o círculo entre nós e o perigo que se aproxima está cada vez se apertando mais." (Anne Frank)

Não, o diário de Anne não é só feito de dor. Também de sabedoria.

"Acho estranho os adultos discutirem tão facilmente e com tanta frequência sobre coisas são mesquinhas." (Anne Frank)

São muitos seus conflitos com a mãe, mas ainda maior é a certeza de que todos na família se amavam. Se o Anexo foi uma realidade terrível, foi a forma de o amoroso pai de Anne manter sua família protegida pelo maior tempo possível. Quantas famílias, hoje, não geram filhos inconsequentes e os deixam à mercê do destino, sem acesso a cultura ou afeto.

A proteção possível, à Anne não faltou. A cultura que ela teve, especialmente através dos livros, em seus breves 15 anos, certamente ultrapassa a da maioria dos jovens – e adultos – de hoje, quem sabe pela falta de oportunidade e incentivo.

A doce e intensa menina não deixou de ser doce e intensa nos tempos de Anexo. A doce e intensa menina terminou transportada de Auschwitz a Bergen-Belsen e jaz, ao que tudo indica, em uma vala comum. Nem se sabe ao certo a data de sua morte, provavelmente ocorrida em fevereiro ou março de 1945, pouco antes do fim da segunda grande guerra.

A sensível menina, por um acaso do destino, nasceu na Alemanha e judia, mas é justo que hoje sua "casa" (ou seu museu, ou seu Anexo) esteja na Holanda, terra que a adotou e a protegeu enquanto pôde. Os pensamentos de Anne percorrem o mundo todo, e deixam a lição do quanto é necessário ser tolerante e ter a humildade de saber que ninguém é melhor do que ninguém. Os alemães são cruéis? NÃO! Foi só uma triste coincidência Anne ter nascido naqueles tempos de passividade diante dos caprichos de um ditador. Qualquer ser humano tem o potencial de ser cruel. Por isso, a história de Anne NÃO PODE ser esquecida.


Toda vez que releio “O diário de Anne Frank” – a cada vez com uma nova maturidade – não deixo de me emocionar com as mesmas coisas. A história de Anne é a história dos campos de concentração, dos milhares que morreram precocemente por exaustão ou nas câmaras de gases, de Olga Benário e muitos outros. Mas a história de Anne é a história de Anne, individual e única, inteligente, espirituosa, ÚNICA. A minha querida Anne... uma jovem mulher, doce e intensa.

Entre outras coisas, Anne desejou ser compreendida apenas como uma adolescente. Eu a compreendo. De certa forma, é bom não esquecer o que é ser uma adolescente, de cujos sentimentos não se deve zombar. Por isso, não deixa de ser um privilégio estar com jovens, escrevendo ou lecionando para eles.

Foi Anne quem disse (mas é como se eu pudesse dizer que as palavras são minhas):

"As pessoas podem mandar você calar a boca, mas não podem lhe impedir de ter uma opinião. Não se pode proibir ninguém de ter opinião, não importa que seja uma pessoa muito jovem!" (Anne Frank)
 

Por isso, especialmente se você é jovem (e ainda mais especialmente se você é meu aluno, rs), digo com toda a minha convicção: LEIA O MÁXIMO QUE PUDER. Só assim conquistará as suas PRÓPRIAS OPINIÕES, que serão mais fortes em você do que qualquer restrição. RETORNE À HISTÓRIA, desvende o “CÁLICE”, o cale-se de Chico Buarque. Não deixe que tirem isso de você. Porque facilitar as coisas é tirar isso tudo isso de você.
 
Retornar à história é entender as condições de produção. Isso não é pura teoria. É VIDA.
 
Se você é menina ou mulher, leia a biografia de grandes mulheres (grandes justamente por seus defeitos e virtudes), só para ter uma ideia do quanto você é capaz. Anne. Olga. Tarsila. Pagu. Marilyn. Madonna. Kate Middleton. As muçulmanas. Eu. VOCÊ.
 
Você já leu "O Diário de Anne Frank"?


Imagem diário:
Copyright Anne Frank House
Photographer Cris Toala Olivares
2010

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Em sala de aula

Alunos de Relações Internacionais debatem o Preconceito Linguístico


Alunos da disciplina Análise do Discurso, ministrada por mim na Universidade Sagrado Coração, debateram em sala de aula o tema preconceito linguístico. A disciplina faz parte do currículo dos cursos de Comunicação Social e é optativa para os alunos de Relações Internacionais, que a procuraram com o incentivo do coordenador do curso, Professor Daniel Freire e Almeida, devido à importância das questões de linguagem para a profissão do internacionalista.

Linguagem - um tema amplo

Os estudantes se prepararam para um seminário em que discutiram as ideias propostas por Marcos Bagno, autor dos livros Preconceito Linguístico, A Língua de Eulália, A norma oculta, entre outros. A discussão, realizada a partir de argumentação, análises de textos e até teatro, modificou o conceito de linguagem dos alunos, que passam a perceber que a língua vai muito além das regras de norma padrão. A proposta foi discutir o tema como uma questão discursiva e social.

Com as teorias estudadas, fica claro que o preconceito linguístico está ligado a preconceitos sociais, geográficos e políticos. O intuito não é desfavorecer o ensino de norma padrão, mas entender que mesmo os supostos erros têm explicações históricas. Por exemplo, um falante que troca L por R (exemplo: “crasse” por “classe”) estaria reproduzindo naturalmente um fenômeno histórico da língua. Num passado remoto, a palavra “escravo”, por exemplo, derivou do latim “sclavu”, já que houve uma tendência de transformação do L em R em línguas latinas. Esse fenômeno só não continua acontecendo porque a influência atual da escrita o segura.

Peculiaridades

Entre outros fatos de linguagem, os alunos também discutiram a questão de que a modalidade escrita é diferente da oral, por isso é um mito pensar que “se fala de um jeito porque se escreve do mesmo jeito”. O aluno Lucas exemplificou com a palavra “jail”, do inglês: “se houvesse uma associação entre o jeito de falar e escrever, leríamos a palavra com a fonética da nossa língua, e não estaria de acordo com a fonética da língua inglesa”.

Complemento com o exemplo do francês: os franceses não pronunciam os “s” finais da maioria das palavras, e isso foi incorporado pela norma padrão francesa, enquanto os falantes do português sofrem preconceito por não pronunciar os ‘s’ finais das palavras, ainda que isso aconteça na conversação informal mesmo de falantes escolarizados e de classes sociais privilegiadas.

Questão social

Uma questão enfatizada pelos alunos foi o fato de que é preciso ler a respeito dos estudos científicos sobre linguagem para compreendê-los. A aluna Mariane comentou que, ao ler o título do capítulo que dizia ser um mito que “é preciso saber gramática para falar e escrever bem”, tendeu a discordar do autor. No entanto, ao ler o livro todo, compreendeu a proposta do autor. Marcos Bagno não afirma em momento algum de sua obra que a escola não deve ensinar a gramática normativa, mas que esse ensino precisa assumir uma dinâmica diferente para produzir um verdadeiro efeito.

Minha experiência como corretora de redação dos vestibulares Unicamp e do Enem comprova esse fato. Durante cerca de 11 anos, a escola foca o ensino de língua portuguesa na nomenclatura de regras gramaticais. Essa atitude não forma um bom escritor, um bom usuário da língua, o que é refletido, entre outros aspectos, na má qualidade de muitas redações em vestibulares e nas deficiências de escrita de muitos alunos que chegam à universidade.

Por uma educação consistente

Qual a solução? Abandonar o ensino de norma padrão? Não, mas reformulá-lo. O primeiro passo para isso é compreender as questões de linguagem como questões sociais, compreender que não são as nomenclaturas que constroem uma língua, mas sim a própria sociedade.

A discussão a respeito do tema é um passo importante, mas é evidente que muitos outros fatores estão envolvidos, como a exclusão social e a necessidade de valorização da educação no país. Os professores de ensino fundamental e médio precisam ter condições adequadas para o ensino e isso só acontecerá com a real valorização da educação pela sociedade.

Uma sociedade crítica tem parâmetros, inclusive, para questionar a própria mídia. Por exemplo, no ano passado, um livro foi massacrado porque supostamente “defendia o ensino do português errado” (leia aqui). O que aconteceu? O livro, em uma página, expunha a existência do preconceito linguístico, o que não é novidade para os estudos científicos de linguagem, e em todas as suas outras páginas, propunha exercícios de norma padrão. Então, como dizer que esse livro estava propondo o ensino do “português errado”? Porém a mídia “vendeu” essa ideia e muitos cidadãos a repetiram, sem questioná-la. Exatamente o que a aluna Mariane enfatizou sobre a importância de aprofundar-se na leitura, e não fazer um julgamento apenas pelo título de um livro ou capítulo.






Mais do que regras gramaticais

Na disciplina de Análise do Discurso, os alunos estudam a linguagem como algo complexo, envolvido por discursos implícitos, ideologias e repertórios distintos, conforme as culturas dos falantes.

Numa negociação entre um país capitalista e um socialista, por exemplo, a grande divergência não será a possível diferença de idioma, mas o fato de que cada um deles compartilha de uma ideologia, uma crença diferente. Asseguro: muitas vezes, será difícil chegar a um acordo não por causa da diferença da língua, mas do discurso, ou seja, da ideologia compartilhada por cada um dos países. São discussões, portanto, relevantes para o universo das relações internacionais, assim como da comunicação e da sociedade em geral.

Érika de Moraes
Jornalista e professora Dra. em Linguística

domingo, 16 de outubro de 2011

Minha primeira entrevista

Fiz essa entrevista aos meus 12 anos, para um trabalho da escola relacionado à profissão que queria seguir. A indicação era que entrevistássemos um profissional da área de nosso interesse. E lá fui eu no inesquecível "Diário de Bauru" entrevistar um também inesquecível personagem do jornalismo bauruense. Havia marcado um horário, com ajuda da minha mãe (afinal, eu tinha 12 anos!). Cheguei com um roteirinho. Nasralla sentou-se diante da máquina de escrever e disse que iria datilografando as repostas para mim, que seria mais prático. E não posso me esquecer de que ele fez isso com uma rapidez impressionante! E sem qualquer errinho de digitação (opa, datilografia...), sem precisar voltar o texto e copiar e colar as palavras para outro lugar do papel. Saí da redação feliz da vida com as minhas laudas em mãos (que hoje mostro aqui digitadas), não sem antes ser apresentada à redação do Diário. De lá para cá, 20 anos.


Entrevista realizada para trabalho escolar

(6.ª série – Ernesto Monte)

Por Érika de Moraes

Entrevistado: Eduardo Nasralla: jornalista, então editor-chefe do “Diário de Bauru”.

1. Qual o seu nome completo?

Eduardo Nasralla.

2. Além de jornalista e editor-chefe do DB, você exerce outra profissão?

Não exerço outra profissão.

3. Por que você escolheu a profissão de jornalista?

Comecei a trabalhar logo aos 14 anos, vendendo livros. Vendi centenas de enciclopédias. Depois passei num concurso e fui trabalhar num banco. Não gostei. A rotina, a burocracia, o horário e a baixa remuneração me deixaram profundamente irritado. Saí de lá, fui para a Brahma de Agudos. Gostei e ganhei dinheiro. Entretanto, conversando com amigos jornalistas, um dia, resolvi me submeter a um teste. Fiquei três meses trabalhando de graça, até que resolveram me contratar, por salário inferior ao piso da categoria. Mas eu gostava. Acho que foi fundamental, para a carreira, a facilidade que eu tinha com o português, especificamente, nas redações escolares do ginásio e colégio. Os professores de então souberam estimular este dom e eu já estou exercendo a profissão há 13 anos.

4. Sempre no Diário de Bauru ou você já passou por outros jornais?

Iniciei no “Jornal da Cidade”, transferi-me para o “DIÁRIO DE BAURU”, onde trabalhava como repórter, das 14 às 21 horas, enquanto na parte da manhã, trabalhava com a equipe do noticioso “O Vanguardão”, da rádio Jovem Auri-Verde. Já fui, também, assessor de Imprensa da Prefeitura Municipal (durante a curta gestão do prefeito Edison Gasparini), e, depois, assumi a editoria do “DIÁRIO DE BAURU”. Saí do “DIÁRIO DE BAURU” e assumi a editoria do jornal “O Comércio de Jahu”, em Jaú; fiz assessoria de Imprensa para o vice-governador Orestes Quércia, em 86 e retornei, posteriormente, ao “DIÁRIO DE BAURU”, para assumir a editoria novamente. Já fui correspondente, em Bauru, do “Jornal da República” e tive publicadas matérias no jornal “Folha de São Paulo”, também.

5. No DB você escreve a coluna “Picles”. Por que “Picles”?

Sou o autor da coluna diária “Picles”. Resolvi escolher esse nome porque a coluna tem uma certa dose de “veneno”. Os comentários políticos ali inseridos, vez ou outra, causam “indigestão” aos políticos e, nada mais indigesto do que um vidro de “Picles”, daí a escolha do nome. Para muitos leitores, é a melhor coluna do jornal. Para muitos outros, algo que não deve ser lido. Mas isso é conseqüência da profissão: espinhos e rosas.

6. Você vai a fundo nas suas reportagens. Faz denúncias, críticas, cobra muito das pessoas no seu trabalho. Você não tem medo?

Olha, realmente eu costumo buscar a essência dos atos, dos fatos. Não me limito apenas a reportar o que está ocorrendo, mas tento transmitir ao leitor porque isto está ocorrendo. É uma tarefa árdua: num primeiro instante, surge a revolta. Depois, porém, o trabalho pode ser reconhecido. Ou não. Tem o “Caso Dedê”, como exemplo. Em 1979, época do “Crime da Igreja”, eu já apontava o envolvimento do então policial civil com o tráfico de drogas e o mundo do crime. Na época, fui tido como “inimigo” da polícia. Sofri pesadas críticas, processos, foi um inferno. Anos mais tarde, porém, consegui provar que ele chefiava uma quadrilha de ladrões de autos, usando a estrutura policial como base para acobertá-lo. O fato causou profundas remodelações nos quadros da Polícia Civil. Aí sim houve reconhecimento dos leitores, da comunidade, recebi uma infinidade de prêmios, fui homenageado com jantares. Mas a tudo isso reagi com naturalidade. Afinal, poderia ter sido apedrejado, também...

7. Então, já foi criticado por ser muito verdadeiro?

Recebi e recebo muitas críticas. Recebo-as como recebo os elogios. São decorrentes. O bom jornalista de hoje pode ser o péssimo de amanhã, dependendo dos interesses em jogo. Ouço as críticas e vou dormir com elas. Reflito, faço auto-análise. Eu erro também. Recebo os elogios e faço auto-análise. Às vezes, apesar de elogiado, eu chego à conclusão de que ainda deixei algo a desejar.

8. Suas matérias costumam repercutir muito, como a que você fez com o arquiteto Jurandir Bueno Filho. Existe uma matéria que marcou muito na sua carreira de jornalista?

O “Caso Dedê” marcou profundamente a minha carreira. Aquilo afetou até a minha vida familiar. Recebi ameaças, as crianças iam para a escola sob vigilância policial, alguns policiais me olhavam torto e fui processado por sete vezes pelo policial envolvido, que não se conformava em ser chamado de “chefe de quadrilha”. Hoje o policial está preso, cumpre pena de quatro anos, que pode ser ampliada e consegui comprovar todas as denúncias que haviam sido formuladas pelo jornal. As reportagens denunciavam os fatos antes das próprias investigações policiais. Este foi o caso que marcou minha carreira, pelo perigo, pelo árduo trabalho realizado e pelo final.

9. Fale alguma coisa sobre a economia e a política brasileira. [transição dos anos 80 para os 90]

O momento político que o país atravessa é grave. Estamos numa fase de transição, saindo da ditadura para a democracia. Existem sérios problemas de natureza econômica, como a inflação que corrói salários e descontrola a economia, herdados de um regime que se instalou no poder à força. Temos, porém, uma nova Constituição, uma esperança de melhores dias e temos que lutar para enfrentar as dificuldades, nunca perdendo de vista a necessidade de darmos sustentação ao regime democrático, às eleições. O povo pode votar errado, como já disse o Pelé, mas é só votando que ele aprende. Não ao retrocesso, eu diria.

10. Em tudo que fazemos precisamos aplicar umas “gotinhas de amor”. Você concorda comigo ou acha que amor é coisa só da juventude?

O amor é essencial a tudo. Nem sempre a gente consegue dosar isso ou transmitir isso. Mas o amor é a alavanca de uma série de coisas. Houvesse mais amor no mundo, Lennon não teria sido assassinado, os Estados Unidos não teriam arrasado com o Vietnã, enfim, faltou amor. O mundo vive, hoje, uma crise de diálogo. É a era da televisão, da informação veloz, do pouco espaço para as conversas em casa, enfim, da crise da comunicação entre os homens. Amor é coisa de jovem, diriam alguns, mas é mais notado entre os velhos.

11. Admiro muito a sua carreira e a sua coragem. Você aconselharia outra pessoa a seguir sua profissão?

É lógico que eu aconselharia, muito embora deva advertir que não é uma profissão das mais rendosas. É uma profissão que não tem horário de trabalho definido. Você trabalha em casa, recebendo uma informação por telefone ou uma visita fora de hora. Você trabalha mais horas do que qualquer outro trabalhador e, nem por isso, ganha fortunas. É apaixonante, porém, poder colaborar com outras pessoas, fazer algo pela comunidade, conviver com pessoas dos mais variados segmentos, enfim, é uma carreira apaixonante. Alguns requisitos são necessários, porém: apurar a gramática, ter uma redação clara, apegar-se à verdade e saber transmiti-la, pelo rádio, jornal ou televisão.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

La isla bonita


Quem circula pela vida acadêmica sabe que publicações são muito importantes para o currículo. Melhor ainda quando dá para unir necessidade com prazer, escrevendo sobre algo que nos apaixone. Assim foi com meu artigo sobre Pagu. Assim foi durante os 5 anos em que estive grávida de minha tese (tá, com algumas crises de desinspiração). Assim foi com minha reportagem sobre a Noruega (trechos aqui e aqui e também aqui). E assim é poder unir cultura pop com teoria séria.
Por isso, esse meu novo artigo, com análise de clipe de Madonna, tem gostinho de estudo com paixão. E creio que paixão é assim, algo mais quali do que quanti (só que o mundo é quanti, né colega Vítor!).

De qualquer forma, aí está meu mais recente artigo, apresentado no Confibercom 2011 (Eca/USP) e agora aqui publicado:

http://confibercom.org/anais2011/pdf/110.pdf


Nele, analiso a imagem do sentido-sujeito Madonna e a representação que faz da América Latina em La Isla Bonita, com respaldo em estudos culturais e na Análise do Discurso francesa, dialogando com o Círculo de Bakhtin. Complexo? Superpop, rss...

Também apresentei neste ano uma análise de "Like a Prayer", em Assis (aguardando publicação).

E assim vou. Circulando pelo pop e pelo crítico. Sem preconceitos, como acredito que deva ser a comunicação. Quebrando (ou tentando quebrar) alguns tabus.
Um dos elogios mais legais que ouvi este ano foi de uma aluna que me disse que se surpreendeu pela professora ter um blog de moda (o irmão deste).
Sou apaixonada pela AD, teoria densa e ampliadora de visões de mundo, o que não quer dizer que meus ícones sejam apenas os óculos, os livros e a má postura diante do computador (um estereotipinho de professor, não?). Só posso ser feliz com AD+balé+amor+livros+lazer+viagens+etc.+etc.+etc. (...). O mundo deveria ser mais quali. (Slow Science já!!!).
Quando estudo-escrevo-teorizo-analiso, é com paixão e seriedade. Só acredito que o mundo deveria girar de um jeito que o horário comercial desse conta do trabalho.
Mas la isla é bonita!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

estilo FASHION mix

Um convitinho...

... pra você dar uma passada no blog irmão (caçula) do Liquimix:

estilo FASHION mix







Anote:
http://www.estilofashionmix.blogspot.com